Quis-te tanto só para mim que hoje entendo não estares mais aqui.

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Eu perdi-me com medo de te perder.

Quis-te tanto só para mim que hoje entendo não estares mais aqui.

Começou quando eu disse algo parecido com “gosto tanto de ti que queria colocar-te numa caixinha!”. Era só um comentário sobre querer cuidar e ter-te sempre por perto, mas aí as coisas mudaram.

Passei a não me reconhecer mais. Sem algum motivo aparente, pouco a pouco vi o meu carinho a transformar-se num desejo incontrolável de algo parecido com posse. Eu precisava saber com quem estavas e o que estavas a falar, eu precisava ler as tuas mensagens recebidas, eu precisava saber dos teus horários e colocar-me acima de tudo, eu precisava saber quem estava perto de ti quando eu não estava.

Eu não sei, que porra! Eu comecei a desesperar só de pensar na possibilidade de te perder, então encontrava maneiras para saber quais seriam os teus passos para que eu pudesse estar perto de cada um deles.

Já me perdi em quantas vezes investiguei os likes nas tuas fotos e quantas horas passei a ver fotos das pessoas que curtem as tuas. Um lado de mim dizia que tudo isso era uma loucura desenfreada, o outro, porém, repetia dentro da minha cabeça que a única maneira para eu não me magoar era identificar o quanto antes qualquer ameaça sobre nós dois.

E eu nunca me orgulhei disso. Sempre me senti idiota ao sentir o coração explodir quando o teu telemóvel recebia alguma notificação. Eu nunca gostei de ver a lista de pessoas que interagem contigo. Só que eu, bem, eu não conseguia fazer diferente. Eu não conseguia lidar comigo mesma.

Isso tudo não tem a ver com desconfiança tua, é sobre mim, é sobre as minhas paranóias e as minhas manias de acreditar que o mundo vai conspirar para as coisas darem errado comigo. Eu é que me sentia insegura e incapaz de dormir em paz contigo ao meu lado, e o pior, as coisas que me aterrorizaram eram coisas que só eu via.

Perguntava para alguns amigos se os meus motivos para ter essas crises eram reais, só que antes de qualquer um deles responder eu argumentava de uma maneira tão convincente que não cabia a chance de eu estar errada, eu nunca parei para pensar que eu os vencia pelo cansaço e não pela razão.

No fundo da minha cegueira eu só enxergava as coisas que eu queria, não as que de facto aconteciam.

“É claro que vais-me largar, ela é tão mais bonita que eu”, “olha como ela é gentil”, “eu nunca me vou parecer como ela”, era o tipo de coisas que me tirava o sono. Ecoava dentro de mim esses julgamentos que eu fazia de mim mesma.

Eu sempre me comparava com as pessoas que tu convivias e, em quase todas as vezes, eu sentia-me pior. Sentia-me menos bonita, menos inteligente, menos atraente, menos o suficiente para ti. E o ciclo só piorava dia após dia. Então eu voltava a investigar as tuas amigas na internet, lia as tuas mensagens escondida, criava motivos para nos chatearmos, eu nunca percebi como fazia tudo mal.

Quis-te tanto só para mim que hoje entendo não estares mais aqui.

Eu reconheço todos os meus excessos, justifico as minhas loucuras pelo meu medo injustificável de sofrer e perder-te. Esqueci-me de te admirar, de te deixar livre para viver e aproveitar. Esqueci-me de te ouvir dizer os teus planos enquanto eu te ocupava a reclamar.

Esqueci-me de planejar coisas boas para nós enquanto fiscalizava perigos que só eu enxergava. Preocupada em manter-te por perto, esqueci-me de te dizer o quanto tu me fazias bem. Começou quando eu te disse algo parecido com “gosto tanto de ti que te queria colocar numa caixinha”. Até que esse caixinha partiu e hoje deixa-me aqui a apanhar os pedaços do que sobrou.

Eu perdi-me com medo de te perder.

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